26 de junho de 2010

memórias póstumas.



MEMÓRIAS PÓSTUMAS


       Nas bocas da noite da infância, eu costumava subir no telhado do rancho, buscar ali uma tabuinha aconchegante, e sentar-me ao lado de minhas indagações de menino à respeito de uma ínfima luzinha que tremeluzia no horizonte já indefinido na noite.
       "Estranho como as coisas mais proeminentes necessitam não da luz, mas da treva, para serem vistas. Assim o é também com as estrelas!... ", imaginava eu. E esse pensamento me fazia elaborar conjecturas a respeito da natureza daquela luzinha distante perdida em meus achados. Seria um filhote de estrelas caído do ninho?... Alguém diante da Sarça?!... A própria Sarça, talvez?!... Quem seriam, se, seus cuidantes?!... Que estranhos contornos a distância que deles me separava deveria ter vincado, então, em suas faces e costumes!

       Percebia-me, não raramente, levitando em minhas indagações, e o profundo silêncio no qual me exilava era, uma vez por tarde, trincado pelo chamado da mãe.
       -"Já é tarde, menino. Desce daí. Onde já se viu ficar no telhado?! Parece um Curiango pousado. Qualquer dia acaba levando uma pedrada."

       Então eu descia, imerso em comunhão, como se por uma vaporosa escadaria de Igreja.

       Nunca trouxe lá de cima senão obscuridade e signos, pois a claridade dos símbolos não podiam de lá descer.

       Um dia minha mãe partiu rodeada de flores, e não tendo eu mais vínculos com o mundo interior à casa, passei a viver no telhado, adotado que fui pelo Sr.Ambiente e Sra.Evolução, nossos vizinhos, que acabaram tornando-me, vagarosamente e de acordo com suas leis, um curiango.

       Às vezes minha levitação, condoída, me entregava à porta do rancho. Então eu entrava e bebia a água suficiente para duas ou três migrações, e um soluço me jogava de volta ao telhado.

       Em minha última noite no telhado, costumeiramente fitando meu filhote de estrela, senti um forte tranco na cabeça. Aquela pequenina luz então tomou-me todos os sentidos e os devolveu num único, muito mais abrangente, que serviu-me por instantes, numa bandeja, todas as sensações doces ou salgadas que a longa vida guardara profundamente em mim.

       Pela vez primeira pude de lá descer carregando toda a claridade dos símbolos, mas percebi sete dias depois que na verdade havia lá permanecido. Então minha mãe, já desfeita nas flores, veio em meu auxílio com o antigo sorriso a me dizer: -"Eu lhe avisei que um dia você acabaria por levar uma pedrada!"...

       E foi assim que me tornei habitante da pequenina Luz.



texto de Joel Pozzobom.

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