25 de setembro de 2016




LEMBRETE PARA DISPERSÕES FUTURAS


               Eu sou pequeno, simples e puro. Tudo em mim que não corresponder à essas condições não me é próprio. Pertence a roupa que vou bordando em torno de mim enquanto caminho do pequeno para o grande, do simples para o complexo e do puro para o impuro.
               Que eu então experimente sempre a ideia de que minha muito bem galgada posição, seja ela qual for e ainda que nenhuma seja, é apenas uma disforme prateleira onde me demoro a organizar condições irreais de grandeza e complexidade. Ou, o lugar em que eu, oportuna ou inadvertidamente, alieno-me em mim.
               Que eu saiba cultivar o hábito de despojar-me de minhas muito bem montadas certezas e, ao primeiro, mais sutil e perturbador sentimento de saudade de mim mesmo, que eu possa fechar os olhos para as distâncias, os limites e cronologias do tão falsamente presente Lado de Fora, e possa, assim, habitar meu interior. Esse lugar indizível onde não serei influenciado por minhas análises e pensamentos, e onde a obscuridade e incompletude próprias da linguagem não poderão revestir ou distorcer minha lucidez. Eis-me então em minha Origem. Esse ponto de onde, salvo enganos e ilusões, eu nunca sai.
               Amém. 


Joel.

24 de agosto de 2016



UMA HISTÓRIA DE ESQUERDA.


           No meio da minha infância assentava-se comodamente a Escolinha Rural Nossa Senhora da Consolação.
           Era feita mesmo a própria Santa a gestar serenamente meia dúzia de felizes crianças, regidas pelas inabilidades doutrinadoras da Tia Pedrita.
           Tudo transcorria normalmente, quando lá pelo meio da cartilha a sala foi agraciada com uma aquisição. Tratava-se do Esquerdinha. Uma dessas personagens cuja característica marcante, no caso a de escrever com a mão esquerda, sobrepõe-se ao nome.
           Para mim, reles destro mortal que nunca havia visto outro do gênero, a situação intrigava.
           Houve que se remanejar o tranquilo cotidiano escolar em torno da especial necessidade do Esquerdinha, pois, dada sua condição, o novato requeria uma carteira extra a ser colocada do lado esquerdo da sua, atravancando a já estreita passagem do corredor.
           Apesar da pouca idade, sete anos à época, coube-me central incumbência nesse processo de remanejamento das carteiras. Em outras palavras, Tia Pedrita direcionou-me cinco tesos dedos em forma de mão espalmada, e do alto de um belamente adornado cavalo imperial, como se às margens do Ipiranga, bradou: " - VAI LÁ JOEL. AJUDA O MENINO." Como se eu também não fosse um.
           Assim, arrastamos lá dos fundos, eu e o Esquerdinha, uma escura peça em desuso, prestes a cuspir um morcego e esculpida na mais dura e pesada cabreúva.
           Estacionado o trambolho, em sinal de agradecimento o Esquerdinha murmurou um exíguo "ta bão aqui".

           Em meu então ainda indefinido mundo conceitual, ora o Esquerdinha pendia para a direita, feito um anjinho deposto numa azulada poltrona de nuvens; ora para a esquerda, feito um vermelho diabrete recém chegado das profundezas, especialmente enviado com o fim de retorcer a tradicional geometria da disposição das carteiras.
           Meus processos mentais enfileiravam-se de forma a assistir as performances do Esquerdinha lá pela ponta esquerda do time do contra. Afinal, era digna de plateia a espasmódica desenvoltura com que esparramava seus arabescos e garranchos sobre a retidão das pautas, como se psicografasse cifradas mensagens do Inferno.
           Quando à noite, no programa político do rádio alguém era mencionado como sendo "de esquerda", lá ia o semblante do Esquerdinha sobrepor-se à indefinição facial do mencionado.

           Pouco depois o ano de 1972 foi tragado pelos vórtices do beleléu levando consigo a meia dúzia, o Esquerdinha, e Tia Dompedrita, galopando seu pomposo alazão imperial, já além da barranca de lá do meu imaginário Riacho do Ipiranga, e bradando alegremente: " -SE É PARA O BEM DE TODOS E FELICIDADE GERAL DA NAÇÃO, DIGAM AO POVO QUE FUI."
           Ato contínuo um pau-de-arara de mudanças estacionou em frente de casa e eu fui, empoleirado, cursar o segundo noutra freguesia.
           Freguesias mais tarde conclui sobressaltado que ser de esquerda não guardava relação alguma com origens infernais ou com escrever com a mão canhota. Mas confesso que até hoje não compreendi muito bem o que vem a ser.
           Sempre que vali-me de consultoria a fim de clarejar o meu conceito sobre a Esquerda, tudo o que consegui foi elevar minhas trevas ao quadrado.
           Assim, sempre que me deparo com pessoas entendidas referindo-se à alguém como "de esquerda", meus velhos preconceitos dessepultam o Esquerdinha, debruçado na cabreúva e ferrando com a geometria da disposição das carteiras, lá na Escolinha Nossa Senhora da Consolação, no meio da minha infância.




texto de Joel Pozzobom

31 de julho de 2014



ENSAIO & CENA


          Sem nascer vou vivendo no acanhado útero de minha mãe. Essa gruta aconchegadamente escura onde fico intuindo a luz.
          Meu irmão já nascido as vezes desce pela claridade vaporosa das cúpulas para dividir uma porção de centelhas e uma caneca de ar.
          Dia desses trouxe-me, bem lavadinho, um caco azul de céu que achou no quintal depois de uma ventania. E pendurou-o no cenário.
          Dói-me fitá-lo, pois a luz fere-me a cegueira enquanto elabora as asas que brotam-me dos olhos para o voo da alma, caco adentro e céu afora, que largará-me escorado numa dessas cadeiras que deixamos aos mortos com toda a mobília, quando migramos de nós.
          E ficará pairando no obscuro palco abandonado, ante à multidão de ausentes, a cena de uma imensa borboleta azul, que disfarçando-se de céu carregou o protagonista.



texto de Joel Pozzobom.
 



19 de março de 2014




DIVINA COMÉDIA.


       Um ar parado e morno envolve a macieira.

       Folhas e flores todas estáticas.

       A brisa, temerosa, aquieta-se debaixo das asas dos anjos. 

       A luz acabrunhou-se.

       Clima tenso no Paraíso!...   E tudo por causa (pasmem) de uma maçã.

       Deus também pelo amor de deus. Tá parecendo o Nhô Lau.

       Faz três dias que não conversa com a Serpente, e anteontem expulsou Adão e Eva, que levando-se em conta a grandiloquência do entrevero, demorarão muito tempo para voltar. (Se é que voltarão algum dia.)

       Pois é. Família é tudo igual.

       Assim na Terra como no Céu, só muda mesmo o endereço.


autor: Joel Pozzobom

22 de novembro de 2013



IV

(pequena imitação de Drummond)

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o quarto permanece.

poesia de Joel Pozzobom

5 de fevereiro de 2013




SINFONIA DAS GOTEIRAS.
( delírios de um dia de chuva.)

            Pela janela recebo a visita da chuva, que me chega feita um suspenso sereno sondando o lugar de pousar. Mas, aos poucos, vai se intensificando e resgatando das folhas o brilho, das flores os lampejos, dos frutos a oferta do doce, e de mim a solidão, tão bem acompanhada das coisas humildemente valorosas.
           Molhado, o galo desliza o canto despertando-me o estranhamento, e ligando, na moita, um grilo.
           Enxada e foice amorosamente se enlaçam atrás da tulha esquecendo seus cabos a brotarem, florirem e frutificarem, enquanto toda sorte de pragas cresce à razão de míseros milímetros por século.
           A goteira já tamborila um parapapá no fundo da latinha esquecida de bruços à sombra do beiral da infância, e o coração, soturno, desafina.
           Os estalos da lenha úmida, o silvo de dor das batatas na cinza quente e o solilóquio borbulhante entre a panela e a chaleira, anunciam o almoço para o fim da vida.
           Valendo-me de ver através das telhas, adivinho a fumaça escapando pela chaminé, feito uma alma matreira desviando-se dos pingos à caça do Céu.
           O guarda-chuva, no canto, é um recruta fardado de preto aguardando ordens e uso, batendo-me continência com aquela vareta quebrada que vara-lhe o pano, à ouvir-me o pensamento: "_Não precisa disso, Seu Guarda!... Quando chove nos lavamos das graduações e divisas, e comungamos com a igualdade."
           Oculta detrás do sono do gato a Confraria do Mal despacha.
           Um trinado de cigarra liberta todos os ecos que eu havia guardado no poço.
           Atalhos e desvios que afluem no carreador que leva ao nada, bebem avidamente o princípio da enxurrada.
           No chão da cozinha eclode um formigueiro. O gato desperta e o mal se dissipa.
           E assim, debruço-me no vaporoso parapeito que mal separa a realidade da imaginação, e fico à moldar, com barro mole, a ideia de que o silêncio, mais que a ausência de barulho, é a comovente presença de Deus à reger a sinfonia de goteiras e ruídos. 



autoria: Joel Pozzobom.

30 de dezembro de 2012











PRIMEIRO

Sobre a carteira,
ainda suspensa no paraíso,
lápis de cores
vão rolando ...

Espinhos que se desprendem
dos galhos do arco-íris
sem machucar.

E um ramo de flores,
indefinidas,
nos jardins em branco
dos campos da vida,
crescendo vertiginosamente
no traço infantil.

"Moldura" do "Frontispício",
(Palavras que não existem), (ainda),
da folha primeira
do caderno da vida,
inteirinha à ser escrita.

                 ***

Ah se a criança soubesse.
Ah se o velho pudesse.


Joel Pozzobom.



19 de dezembro de 2012

visita




VISITA

                    Me acompanha pela estrada por qual retorno, a mudez, sombria, de uma calha funda que não havia, sustendo um leito de névoas onde inversamente decorre o tempo, levando aos idos as minhas súplicas de naufragado.
                    No fim da estrada onde desagua a enxurrada cristalina e tênue das lembranças, a velha casa ainda se pendura burlando o vácuo já erodido de sua própria ausência.
                    Boiando na distância que não alcanço, resguarda dentro os últimos traços dos meus vestígios desvanecidos nos cães perdidos; nos passarinhos adornando com colorida espera o nosso tempo, então eterno, de ouvi-los o canto; na muda cantarola da mãe feliz; na imensa aba do pai, sentado sobre o domingo, feito uma copa à cuja sombra nos convergíamos; na boiadinha de limões verdes que amarelavam à procriar, nessa sombra clara que flutuava ao perfume doce do meu pomar; e no quintal sem cerca que me invadia, à margem desse outro em que fui crescendo, inversamente, rumo à fundura dos sepultados.
                    E a casa velha estampa, escuras, duas janelas feitas dois olhos que me adivinham como um fantasma. E o dia claro imerso em vozes, que havia dentro, tornou-se noite e emudeceu.
                    Depurando o nada vou resgatando o fugaz menino que encontro, as vezes, coabitando bem conformado esse comum corpo que era só seu e hoje dividimos. E com o gesto puro e iluminado que abandonei e que se apagou, pega em minha mão para se guiar, sem supor, no entanto, que aqui cheguei por estar perdido.
                    Um cansaço agudo que desconhece o faz estranhar, ao curvar-me o corpo.
                    Então nos sentamos na pedra etérea deposta à sombra inexistente de um pé de lenha decapitado, e descansamos na fronteiriça  imprecisão onde as mãos, aos poucos, migram do aperto para o aceno.



texto de Joel Pozzobom.

25 de outubro de 2012

Vovô viu a uva.





 Família, família... 
 melhor não tê-la. 
Porém sem tê-la, 
como sabê-la...?  

( Vinícius de Amor & Ais ).






PÃO & VINHO LTDA. 
( picuinha curtida no vinagre, flambada com vinho e regada à cachaça.)


As escadas da vida apenas se instalam.  
Subir ou descer depende de cada um. 
( Fragonard, o sóbrio ) 


Em minha primeira lição,
                                        vovô 
                                              viu 
                                                  a uva.

na segunda,

Seu Domingo, o colhedor,
partiu numa Segunda
rumo a curva turva
dos que não voltam.

    E vovô
               viu viúva
                             a viúva,
e em abas de Chapéuzinho,
fugindo ao contexto, 
levou-lhe uma cesta
de pães e de vinho
e de outros pretextos.
                                               de chuva,
                                           em dia         .
                                        à cozinha      .      .
                                     da sala                 .
                                  sozinha               .  .
                               rolava                        .
                            qual uva,                  .
                         rotunda                      .    .   .
                      inteirinha,                      .    .     
                   E a vida,                       .        .       ou de sol.  ... Sem que vovó desconfiasse!


Mas em minha 
                     terceira lição
                                        vi vovô a ver a uva.


E vovó ficou sabendo,
porque achou, 
meu passarinho interior,
que fosse jabuticaba,
e foi voando lhe contar.

Vovô, no dia seguinte,
proibiu-me a escola,
os arredores das casas,
engenho, jogo de bola, 
aparou-me as duas asas,
tirou-me dos pés as molas,
e conforme fui crescendo
ia trocando a gaiola.

Por outra sempre menor.

E encerrado na gaiola
eu cantava porque triste
angariando a esmola
que garantia o alpiste.

E assim via de cima
a infância sendo escrita
sem os pingos nos is,
lição à lição,
nas páginas brancas
tal qual algodão,
sobre o aglomerado 
de cruzes 
tramando o xadrez
sob estampas de urzes
na toalha da vida,
manchada
              do vinho
                          que vinha 
                                        da vinha.

E a vida ganhando

contornos de cacho,
para caber, requereu
volumes de tacho. 

E o doce viscoso
em que se tornou
acabou perdendo o ponto
final,
e vazou aos territórios 
para além das reticências ...   
                                            ...   
                                                 ... 

E conforme fui

aprendendo a ler
-me, 
fui perdendo a inocência,
                                       vovô
                                               a vergonha,
                                                                vovó, 
                                                                        a cadência,  a candura ...
                                                                                                   
 seus doces
                 o doce,
                            e seus pães
                                             a ternura.

.. e em velada incumbência

sentou-se, noite, ao luar
e em solene paciência
colocou-se à bocejar....
                              e a brotar...
                                            viscejar...
                                                       encopar ...

E ainda cresce, videira
em cuja sombra Seu Domingo
jaz em paz no aglomerado
de cruzes,

perdidas no abandonado
cemitério retomado
pela vida e pelas urzes.

E vai crescendo, videira ...

E com as raízes, fundas,
mais profícuas e fecundas,
de domingo à segunda
e de segunda à domingo,

faça sol ou faça chuva,
em murmúrio e choramingo
explode em cachos de uva
bolinando Seu Domingo. 

E a vila em volta, contida
em solidão de dar dó,
em ciclos retorna à vida
nos orgasmos da vovó. 

E coroando o milagre
a primavera a floriu,
o vinho fez-se vinagre,
e a Pão & Vinho faliu. 

E vovô tanto aprontou

( não que eu o crucifique )
que o Lobo o encontrou.
E herdando o que restou
eu abri um alambique.


*

E a viúva,
sem sequer licença expressa
do Sr. Drummond de Andrade,
casou-se com J.Pinto Fernandes,
que viera de outra história.

 


texto de Joel Pozzobom

A adaptação é a chave da evolução. ( Charles Darwin )
 ...e do sucesso empresarial. ( Layr Ribeiro, de carona )
ou,
"Quem não tem Vinho cachaça com Pinga." ( Fragonard embriagado ).

*
Meus queridos e puros avós Belarmino, Eufêmia, Polidoro e Ornelinha e suas respectivas primeira, segunda, terceira e quarta gerações, e quinta, prá garantir.  Já vou aqui avisando que essa é uma obra de "fricção", e assim, qualquer faísca não é mera coincidência. 

*

 

15 de setembro de 2012

ciclo



CICLO


Que insólita névoa
de dúvidas feita
permeia o claro
de minhas certezas ?


Que inóspito abismo
o mistério que humano
com mãos de desvelo
tateia e resguarda ?


Que ermo se arma
no céu que por sobre
traduz-se em penumbra
cingida de luz ?


Que engenho sustenta
o vôo alçado
que ao pardo da névoa,
um dia, sucumbe ?


Incendidas as plumas
das asas que descem,
que chama as calcina
e em cinza as dispersa ?


Que dorso perfuram
as asas em broto
lançando-se novas
ao pardo da névoa, ?


que,   insólita névoa,
de dúvidas feita,
permeia o claro
de minhas certezas.



marca-página de Joel Pozzobom.

11 de setembro de 2012

A descoberta do remorso.



A DESCOBERTA DO REMORSO
Folha seca da manhã domingueira desprendida dos ramos da lembrança.

      Aos domingos nos apinhávamos na carroça vestidinhos de manhã. Eu, e todas as crianças que viviam em Mim. E deixávamos de bom grado que a ensolarada estrada que nos levava à Igreja fosse engolindo nosso frescor matinal.
      Satanás nos seguia com a língua de fora pingando a baba,  e com o rabo ia sintonizando as estações da nossa domingueira alegria.
      De quando em quando Remorso desprezava entre os varais da carroça os acúmulos descartáveis de suas ruminações do dia anterior. O que para nós era uma festa com requintes de malícia sem malícia.
      Então Satanás parava diante do estrume novo com trejeitos de quem cheira pipa de azedar repolho, assoprava pelo focinho se desviando da merda, e retomava caminho rumo à suas convicções religiosas, sempre rebatizando com urina as pedras da estrada.
      Satanás era nosso cãozinho religioso com aval do padre para entrar na igreja.  E Remorso um burro ateu, que, evidentemente, ficava do lado de fora.  Do pátio.
      Eram, de fato, apenas dois animais. Mas como na conversa do pai boiava o artifício de tornar os fantasmas seres palpáveis ao desarmado sentido de tato de nossa consciência em formação, Satanás e Remorso passaram a pousar em meus ombros com assopros e hálitos opostos em meu nascente exercício de livre arbítrio.
      Um vivia solto em Mim com direito à brincadeiras e acesso à varanda, quando chovia. O outro vivia num pequeno pasto sem arbustos, chovesse ou não, e puxava arado, lenha, coivara, água, melancia, milho, laranja, sonhos...  e pesadelos.  E aos domingos descansava puxando aquela carroça apinhada de creanças.

      Um latia. O outro calava. E calando foi que despertou em mim um sentimento perturbador e até então desconhecido, que se tornaria minha própria carroça.  Essa, que hoje vivo puxando pelas estradas de Mim.
  
Texto de Joel Pozzobom.

12 de abril de 2012

fumaça no pensamento.


Eça história de Cér é bobage. Duvídio qui lá os Ânjo dêxa a genti pitá. Pirfíru í prú Inférno!... Lá mi acóco na bêra dum brazêro i num pircízo nem di izquêro Sô. ( Belarmino Fernande. )

FUMAÇA NO PENSAMENTO.

          Me recordo com suspensa nostalgia do meu avô Belarmino, coroado pela luz da lua no quintal noturno, picando fumo para o quinquagésimo e já insípido cigarrinho do dia.

          Caprichoso que era e com a habilidade galgada com o sacrifício dos anos de vício, catava no paiol uma espiga e descartava essas coisas desnecessárias  de milho e sabugo, e com o que realmente interessava, a palha, inteira e sequinha, sentava-se no toco para confeccionar o quinquagésimo.

          A manufatura ia brotando nas mãos do Vô, que munido de um canivete cujo fio não combinava nunca com sua voracidade por uma baforada, picava trêmula e grosseiramente o fumo, ameaçando sempre jogar fora o canivete sem nunca cumprir a ameaça.

          E observando sempre o equilíbrio entre necessário e suficiente, enchia a palha e dobrava a ponta afastando um pouco "a obra” das vistas para, segundo ele, guardá-lo no pensamento antes de consumi-lo.

          Dadas as dimensões dos "dirigíveis", os cigarros do Vovô flutuavam nas piadas dos quintais vizinhos como "as pamonhas-de-fumo do Seu Belarmino".

***

          E Vovô, de tanto picar fumo, foi perdendo as digitais dos dedos (até porque outras não constam) e a identidade da Alma. E adoeceu quando eu era ainda menino.

          Disseram os médicos que se tratava de "fumaça no pensamento".

          Então nas noites de lua, avistava-se Seu Belarmino, proibido que fora de tragar as pamonhas, todo lampeiro tentando apanhar pirilampos, murmurando roucamente: Bituuuuca!... Bituuuuca!...

***

          Mas Seu Belarmino, meu avô, acabou passando para a história da região de Sabugos, currutela onde pitava.

          Digo, vivia.

          Não como um gênio construtor de dirigíveis, mas como o matuto cujos pulmões, numa noite de lua entrecortada pela tosse cada vez mais Ruáá Ruáá, resolveram abandonar-lhe o peito e, de mãos dadas, fugiram capoeira à dentro para sabe-se lá o quê, largando o vácuo silencioso de suas cavidades para que vovô acabasse de criá-lo.

          Traição.

***

          E Vovô, finalmente isentado de suas obrigações respiratórias sem sequer ter exercido o sagrado direito ao último suspiro, passou a viver no fundo do lago de minhas saudades, acocorado no limo, tentando inutilmente acender seu primeiro cigarrinho da Eternidade, entre ameaças constantes de jogar fora o isqueiro, e feito um escuro feto sempre prestes a ser abortado pelas águas claras que desde então o envolvem.

          E quando chega a noite e os raios de luar perfuram a água acendendo os lambaris, eu ouço vagamente o assombroso mantra de Seu Belarmino: ... Bituuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...   ...uuuuuuuuuuca!... Bituuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...! ... e me pergunto: será já a fumaça herdada no meu pensamento vago?... ou vovô na voz do lago?...


***

A essência, dependendo das circunstâncias e do meio, não reside no interior (dentro), mas no interiôr (região afastada). Feito a palha duma espiga. (Wiliam Fragonard.)

Texto de Joel Pozzobom. Neto fictício do Senhor Belarmino Fernande.