PENDURICALHOS
Não se trata de um Moinho Holandês, desenhado com a gris exatidão dos traços de Dorè e recoberto pela nitidez obscura das tintas.
Não.
Não.
O moinho da minha infância está crucificado fora de nível num velho toco atrás da tulha, com três cravos tortos e enferrujados, e jamais morre, pois precisa doer.
Bucoliza o campestre quintal onde até hoje brinco de esconder-me na ausência que lá deixei quando parti.
Bucoliza o campestre quintal onde até hoje brinco de esconder-me na ausência que lá deixei quando parti.
Tem por auréola um velho urinol de ágate atado ao beiral, que desprovido de uma das asas por suas natureza e função, e da outra pela ferrugem, escolheu sabiamente adormecer seu vôo para, elevado à divina condição de receptáculo de ninhos, gestar o vôo dos pombos.
Nessa Fazenda as águas passadas seguem a mover antigos moinhos.
Dentro da casa, as lamparinas dispostas juntinhas na prateleira da memória, permanecem apagadas em seu sono diurno, decantando sua querosene depois de espantarem para o tempo presente todos os fantasmas das noites já dormidas. E sua perdida luz ainda derrama uma aura em torno das ausentes mãos maternais no trêmulo ofício de cortar flanelas para os pavios, como se aparasse, doloridamente, a saudade.
Um calendário vencido escorre a implacável passagem do tempo, pregado na parede da sala deixada, cujo único móvel era um banco feito. Apoio do paterno cansaço à contar-nos histórias de festas no Céu.
As ferramentas penduradas na casa do poço, dúbias, me serviam como aprendizado e brinquedo.
Nessa Fazenda as águas passadas seguem a mover antigos moinhos.
Dentro da casa, as lamparinas dispostas juntinhas na prateleira da memória, permanecem apagadas em seu sono diurno, decantando sua querosene depois de espantarem para o tempo presente todos os fantasmas das noites já dormidas. E sua perdida luz ainda derrama uma aura em torno das ausentes mãos maternais no trêmulo ofício de cortar flanelas para os pavios, como se aparasse, doloridamente, a saudade.
Um calendário vencido escorre a implacável passagem do tempo, pregado na parede da sala deixada, cujo único móvel era um banco feito. Apoio do paterno cansaço à contar-nos histórias de festas no Céu.
As ferramentas penduradas na casa do poço, dúbias, me serviam como aprendizado e brinquedo.
Do pocinho cavado à mão pequenina, na terra dura, jamais jorrou água. Mas as nuvens, em comoção, choraram por cima uma chuva. E a moeda ali enterrada e não mais encontrada, fez-se o tesouro pirata que a vida jamais devolveu. O " X " que resguardo no mapa da infância.
A grade de lenha secando era então o motivo único do Sol, e deitar-me no cocho do gado fingindo-me sal alvejou-me os conceitos, ainda que tenha salgado-os um pouco. E de conceitos cada vez mais clarejados e conservados na salsugem dos sonhos, fui sendo transportado à Reinos de pura leveza pelo carro pesadamente abandonado à sombra da memória da gameleira.
E um dia o imaginário caminho de terra deu num mar de ilusões. O carro fez-se em jangada e a gameleira por sobre abriu-se em vela.
Para nunca ser alcançado, desprendi na torrente das águas passadas a âncora de cana de milho e cipó de barbante. E por nunca mais ter parado descobri Continentes!... Mas por ter sido por Mim alcançado, a vida os cobriu novamente.
texto de Joel Pozzobom.
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