
PAPAGAIOS ME BIQUEM.
Todo ano, à época dos ninhos, papagaios vêm habitar-me o sótão.
E aprenderam, com o ciclo, a imitar-me em meus roncos à noite, e de dia devolvê-los decifrado.
Se acaso desperto nas ilhas do sono, lá estão. Tagarelando meus próprios pensamentos, de maneira tão cristalina que só quem imita consegue.
Num meio de noite qualquer da estação dos ninhos, o rompimento conjunto de todas as cascas trinca-me a superfície do sono, e acordo como se chocado estivesse sendo, também. São meus filhotes de papagaio chegando em bando dos territórios suspensos pelo mistério, trazendo do n(ovo) a umidade desse misterioso duto por onde à vida chegamos.
E a estação novamente vai aos poucos sendo riscada pelo alegre colorido de suas asas, até que numa fronteiriça manhã julgo terem decorado o silêncio que há no cerne desse nosso solilóquio. Porém, não. Eles partiram. Levando consigo os meus segredos que, por meus e segredos, sequer os conheço enquanto desperto.
Porém se adormeço, vislumbro a floresta encantada onde tudo de mim é por eles entregue à peso de penas a todos os seres da fauna, da flora e das lendas.
texto de Joel Pozzobom
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