8 de agosto de 2011

Viagem sob as pálpebras à paisagem surreal de Hy Brasil.




VIAGEM SOB AS PÁLPEBRAS À PAISAGEM SURREAL DE HY BRASIL.

... eis-me transportado, sonho e compromisso, ao País Profundo. (Drummond)

               A Lua verde testemunha a noite dos ermos insondáveis sob um véu de morna claridade pregado, com estrelas, ao céu. E de cada das estrelas, partem cristalizados relâmpagos!... rachaduras luminosas que põem à ranger a abóbada do Universo.
               Num riacho de leite navego sem leme, sem barco e sem corpo, à sondar os limites do mundo.
               Na margem esquerda um anjo embriagado se banha e um peixe me engole aos espaços suspensos que o sonho modela e o dia acende. Eis me despertando e escapando pelo bocejo para a encenação do primeiro dia da história.
               Há cervos pastando nuvens ante os agudos e iluminados penhascos que Leonardo vai pintando.  E berrando bolhas se decompõem almiscarando os ventos e atraindo os urubus brancos do avesso do mundo, pousados nas demarcadas cordas que o sustentam e manipulam.
               E o anjo já boia a leveza dos idos, no leito de leite.
               Aporto na junção da Cruz cujos madeiros são o riacho por onde vim e a linha férrea, impalpável, por onde pretendo seguir. E percebo ali sentado, mendicante, o esqueleto do maquinista, esquecido pelo trem fantasma, à pedir-me demãos de verniz. Um Frade, trazendo sob o hábito as caudas de dois demônios e contas, para um rosário, corta o laço do horizonte e aponta na via, ao longe, inaugurando o atraso. Não há mais tempo ou cenário para a extrema-unção do anjo, que assim se desintegra calcinando as cordas para que o mundo se deite.
               Na distância arde um arbusto com pequenas e negras frutas esféricas, caindo para dentro de sua densidade. As quais saboreio com os olhos do sonho. E Dom Bosco, presente na ausência, reabsorve-me, assim, as asas, devolvendo-me a densidade e dizendo-me apenas com a vida das palavras e a amabilidade de seu translúcido rosto esculpido na Luz:

               - Abandones essa corrida que te leva a Lugar Algum, pois, para que permaneças, te basta que pares.

texto de Joel Pozzobom

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