11 de outubro de 2011




CONTANDO OVELHAS


          Quantas vidas descartamos para vivermos uma única!

          Quantos quintais seguimos varrendo para que um único possa, vagarosamente, sepultar nossos brinquedos com as folhas secas que os outonos vão derrubando da árvore da vida.

          Quantos passos deixamos de dar porque a sombra, escura, porém convidativa e fresca, arma-se à beira do caminho. E como esses passos, à mais ou de menos, definem, em todos os sentidos, nosso ponto presente.

          Quantos castelos em vão construímos nos terrenos férteis dos sonhos, naquele reino que nunca fundamos, onde nossas faltas nunca esmolariam.

          Quantas poses nunca registradas porque o fotógrafo ambulante, lá na encruzilhada da via, resolveu virar à direita quando à esquerda vivíamos. O que faz com que hoje seja ausente na parede que nos separa de nós, esse retrato em branco, onde posam essas personagens das vidas que abandonamos em detrimento dessa que nos escolheu.

          À sombra, escura, porém convidativa e fresca, armada à beira do caminho, nos deitamos contando ovelhas à pular, sem transpor, nossos obstáculos, e adormecemos. Até que, quedos brinquedos, despertarmos numa tarde ganhando a noite, imersos naquele amontoado das folhas secas que os outonos derrubaram da árvore da vida.


texto de Joel Pozzobom

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