O DIÁRIO NOTURNO DA ILHA CHUVOSA.
Endereços do Silêncio.
Endereços do Silêncio.
O silêncio é um nômade provido de ubiquidade. Vagueia por toda a extensão da ilha interior, estendendo-se à partir daí aos mais inusitados endereços e instantes.
Nessa noite por ele sitiada, eu, exilado nessa ilha tranquila que as goteiras vão perfurando, vou enumerando e delatando os seus outros e suspensos logradouros:
Uma lâmina de luz sangrando a treva.
O segundo anterior ao romper da fervura.
O segundo seguinte à um grito de horror.
O mundo interior à textura das pedras.
O orvalho dormindo no colo da flor.
Um teto de sapê vencendo a chuva na noite campestre.
Um pensamento singrando os vapores de um gêiser.
... as estrelas da manhã cantando juntas. ( Edward Carpenter )
Um resquício de trinado numa casca de cigarra.
A banda da solidão nos coretos da madrugada.
O fundo de todos os lagos e o indecifrável emaranhado das raízes de um pântano.
Os gemidos dos eixos pelos carreadores da memória.
A pose dos finados eternizando-se a medida em que o retrato se apaga.
O solilóquio dos bustos de mármore na noite do museu.
Os círculos mortos das crateras da Lua.
Os ecos descansando nas fendas da ruína.
Um barquinho de papel domando o Dilúvio.
As páginas em branco além dos epílogos.
A marcha das formigas rumo aos Templos de Açúcar.
A imobilidade dos cataventos aguardando a estação das brisas.
A poltrona vazia de alguém que partiu.
Um seixo afogado no fundo do córrego.
O pêndulo imóvel de um relógio vencido.
A muda fraternidade que há entre as flautas partidas e os violinos sem corda.
O semblante taciturno de São Pedro e o ranger das portas do céu.
Um zumbido inaudível à guiar os elefantes.
A algazarra dos fantasmas abaixo dos infra sons.
O recreio dos monges.
O ventre vazio depois do parto.
O território além das reticências ...
A álgebra perenemente irresolvida, gravada para sempre na lousa da escola bombardeada, enquanto o brinquedo aguarda a criança morta.
E o pouso dessas verdades imensas porque ínfimas, que as palavras não conseguem revestir sem que as debulhem.
texto de Joel Pozzobom, publicado na FVT

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