21 de outubro de 2011

O Diário Noturno da Ilha Chuvosa.




O DIÁRIO NOTURNO DA ILHA CHUVOSA.
Endereços do Silêncio.


               O silêncio é um nômade provido de ubiquidade. Vagueia por toda a extensão da ilha interior, estendendo-se à partir daí aos mais inusitados endereços e instantes.

               Nessa noite por ele sitiada, eu, exilado nessa ilha tranquila que as goteiras vão perfurando, vou enumerando e delatando os seus outros e suspensos logradouros:

               Uma lâmina de luz sangrando a treva.

               O segundo anterior ao romper da fervura.

               O segundo seguinte à um grito de horror.

               O mundo interior à textura das pedras.

               O orvalho dormindo no colo da flor.

               Um teto de sapê vencendo a chuva na noite campestre.

               Um pensamento singrando os vapores de um gêiser.

           ... as estrelas da manhã cantando juntas. ( Edward Carpenter )

               Um resquício de trinado numa casca de cigarra.

               A banda da solidão nos coretos da madrugada.

               O fundo de todos os lagos e o indecifrável emaranhado das raízes de um pântano.

               Os gemidos dos eixos pelos carreadores da memória.

               A pose dos finados eternizando-se a medida em que o retrato se apaga.

               O solilóquio dos bustos de mármore na noite do museu.

               Os círculos mortos das crateras da Lua.

               Os ecos descansando nas fendas da ruína.

               Um barquinho de papel domando o Dilúvio.

               As páginas em branco além dos epílogos.

               A marcha das formigas rumo aos Templos de Açúcar.

               A imobilidade dos cataventos aguardando a estação das brisas.

               A poltrona vazia de alguém que partiu.

               Um seixo afogado no fundo do córrego.

               O pêndulo imóvel de um relógio vencido.

               A muda fraternidade que há entre as flautas partidas e os violinos sem corda.

               O semblante taciturno de São Pedro e o ranger das portas do céu.

               Um zumbido inaudível à guiar os elefantes.

               A algazarra dos fantasmas abaixo dos infra sons.

               O recreio dos monges.

               O ventre vazio depois do parto.

               O território além das reticências ...
 

               A álgebra perenemente irresolvida, gravada para sempre na lousa da escola bombardeada, enquanto o brinquedo aguarda a criança morta.

               E o pouso dessas verdades imensas porque ínfimas, que as palavras não conseguem revestir sem que as debulhem.


texto de Joel Pozzobom, publicado na FVT

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