19 de dezembro de 2012

visita




VISITA

                    Me acompanha pela estrada por qual retorno, a mudez, sombria, de uma calha funda que não havia, sustendo um leito de névoas onde inversamente decorre o tempo, levando aos idos as minhas súplicas de naufragado.
                    No fim da estrada onde desagua a enxurrada cristalina e tênue das lembranças, a velha casa ainda se pendura burlando o vácuo já erodido de sua própria ausência.
                    Boiando na distância que não alcanço, resguarda dentro os últimos traços dos meus vestígios desvanecidos nos cães perdidos; nos passarinhos adornando com colorida espera o nosso tempo, então eterno, de ouvi-los o canto; na muda cantarola da mãe feliz; na imensa aba do pai, sentado sobre o domingo, feito uma copa à cuja sombra nos convergíamos; na boiadinha de limões verdes que amarelavam à procriar, nessa sombra clara que flutuava ao perfume doce do meu pomar; e no quintal sem cerca que me invadia, à margem desse outro em que fui crescendo, inversamente, rumo à fundura dos sepultados.
                    E a casa velha estampa, escuras, duas janelas feitas dois olhos que me adivinham como um fantasma. E o dia claro imerso em vozes, que havia dentro, tornou-se noite e emudeceu.
                    Depurando o nada vou resgatando o fugaz menino que encontro, as vezes, coabitando bem conformado esse comum corpo que era só seu e hoje dividimos. E com o gesto puro e iluminado que abandonei e que se apagou, pega em minha mão para se guiar, sem supor, no entanto, que aqui cheguei por estar perdido.
                    Um cansaço agudo que desconhece o faz estranhar, ao curvar-me o corpo.
                    Então nos sentamos na pedra etérea deposta à sombra inexistente de um pé de lenha decapitado, e descansamos na fronteiriça  imprecisão onde as mãos, aos poucos, migram do aperto para o aceno.



texto de Joel Pozzobom.

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