5 de fevereiro de 2013




SINFONIA DAS GOTEIRAS.
( delírios de um dia de chuva.)

            Pela janela recebo a visita da chuva, que me chega feita um suspenso sereno sondando o lugar de pousar. Mas, aos poucos, vai se intensificando e resgatando das folhas o brilho, das flores os lampejos, dos frutos a oferta do doce, e de mim a solidão, tão bem acompanhada das coisas humildemente valorosas.
           Molhado, o galo desliza o canto despertando-me o estranhamento, e ligando, na moita, um grilo.
           Enxada e foice amorosamente se enlaçam atrás da tulha esquecendo seus cabos a brotarem, florirem e frutificarem, enquanto toda sorte de pragas cresce à razão de míseros milímetros por século.
           A goteira já tamborila um parapapá no fundo da latinha esquecida de bruços à sombra do beiral da infância, e o coração, soturno, desafina.
           Os estalos da lenha úmida, o silvo de dor das batatas na cinza quente e o solilóquio borbulhante entre a panela e a chaleira, anunciam o almoço para o fim da vida.
           Valendo-me de ver através das telhas, adivinho a fumaça escapando pela chaminé, feito uma alma matreira desviando-se dos pingos à caça do Céu.
           O guarda-chuva, no canto, é um recruta fardado de preto aguardando ordens e uso, batendo-me continência com aquela vareta quebrada que vara-lhe o pano, à ouvir-me o pensamento: "_Não precisa disso, Seu Guarda!... Quando chove nos lavamos das graduações e divisas, e comungamos com a igualdade."
           Oculta detrás do sono do gato a Confraria do Mal despacha.
           Um trinado de cigarra liberta todos os ecos que eu havia guardado no poço.
           Atalhos e desvios que afluem no carreador que leva ao nada, bebem avidamente o princípio da enxurrada.
           No chão da cozinha eclode um formigueiro. O gato desperta e o mal se dissipa.
           E assim, debruço-me no vaporoso parapeito que mal separa a realidade da imaginação, e fico à moldar, com barro mole, a ideia de que o silêncio, mais que a ausência de barulho, é a comovente presença de Deus à reger a sinfonia de goteiras e ruídos. 



autoria: Joel Pozzobom.

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