SINFONIA DAS GOTEIRAS.
( delírios de um dia de chuva.)
Pela janela recebo a visita da chuva, que me chega feita um suspenso
sereno sondando o lugar de pousar. Mas, aos poucos, vai se
intensificando e resgatando das folhas o brilho, das flores os lampejos,
dos frutos a oferta do doce, e de mim a solidão, tão bem acompanhada
das coisas humildemente valorosas.Molhado, o galo desliza o canto despertando-me o estranhamento, e ligando, na moita, um grilo.
Enxada e foice amorosamente se enlaçam atrás da tulha esquecendo seus cabos a brotarem, florirem e frutificarem, enquanto toda sorte de pragas cresce à razão de míseros milímetros por século.
A goteira já tamborila um parapapá no fundo da latinha esquecida de bruços à sombra do beiral da infância, e o coração, soturno, desafina.
Os estalos da lenha úmida, o silvo de dor das batatas na cinza quente e o solilóquio borbulhante entre a panela e a chaleira, anunciam o almoço para o fim da vida.
Valendo-me de ver através das telhas, adivinho a fumaça escapando pela chaminé, feito uma alma matreira desviando-se dos pingos à caça do Céu.
O guarda-chuva, no canto, é um recruta fardado de preto aguardando ordens e uso, batendo-me continência com aquela vareta quebrada que vara-lhe o pano, à ouvir-me o pensamento: "_Não precisa disso, Seu Guarda!... Quando chove nos lavamos das graduações e divisas, e comungamos com a igualdade."
Oculta detrás do sono do gato a Confraria do Mal despacha.
Um trinado de cigarra liberta todos os ecos que eu havia guardado no poço.
Atalhos e desvios que afluem no carreador que leva ao nada, bebem avidamente o princípio da enxurrada.
No chão da cozinha eclode um formigueiro. O gato desperta e o mal se dissipa.
E assim, debruço-me no vaporoso parapeito que mal separa a realidade da imaginação, e fico à moldar, com barro mole, a ideia de que o silêncio, mais que a ausência de barulho, é a comovente presença de Deus à reger a sinfonia de goteiras e ruídos.
autoria: Joel Pozzobom.

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