16 de junho de 2010

Delírio roedor






DELÍRIO ROEDOR

 
Eu venho de vós tragar-vos, para entregar-vos à vós.  ( Wiliam Frag ).

 
                    Eu sou o rato a roer os restolhos largados pela avidez de vossa colheita.

                    Sou o mais apartado de vossos serventes. Aquele cujas moedas do ganho sucumbem sempre à atração do pesado metal de vosso tesouro.

                    Sou o escravo a varrer com o olhar, e a recolher, o dourado que agoniza em vosso poente, enquanto confinas a liberdade em vossa cela de ouro.

                    Sou o ponto semovente no horizonte além de vossa cegueira.

                    Sou o nu e a exposição, em origem, princípio e essência.  Mas para o deleite de vosso engano, trago por vestes a sobreposição de vossos descartes.

                    E retorno ao rato, a roer no sótão de vossa inercia e a ganhar asas na sobrequilha de vosso paiol.  E, agora, sabedor da intraçabilidade de vossas ambíguas divisas, deponho asas e vôo sobre o medo que disfarças, e disfarçando, denotas.

 

texto de joel Pozzobom.

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