7 de outubro de 2010

Franciscando




FRANCISCANDO


O dia amanhecendo
é um sorriso de criança
convidando-me a brincar
do lado de fora da noite.

E já despido de mim
visto-me de meu passeio
e atravesso a álea adiante
conjugando um verbo novo.

Franciscar, no infinitivo.

... e na estrada em que francisco
vou colhendo o azul de tudo
para o deleite dos olhos.

Os resquícios da penumbra
emersos à claridade
sucumbem ante a visão
do meu mais fundo interior.

Ver por dentro u'a gota d'água
me eleva a ver de fora
toda a trama do Infinito.

E sorver lhe a origem
abre sua transparência
em um caminho em túnel,
conduzindo a nova alma
para o centro imanifesto
de todas as coisas postas,
nessa manhã que se abre,
sobre as mesas elevadas
do café do Criador.

Convidado, aceito um gole
da mais pura claridade.

E prossigo em meu caminho
a colheita dos vislumbres.

As pedras beirando a estrada
se aninham na quietude
com que calam o mistério,
em que pousa, transcendente,
sua manifestação.
E abrem-me flores ocultas.

Acaso viste uma pedra florir ?...

Quando vires, vossos olhos
nunca mais se fecharão !...

Mais adiante, uma tapera
despertando à beira-estrada,
mais que florir, estremece.

Compreendo e retribuo.
E suas palhas me acomodam.

Passarinhos se derramam
levando em suas leis internas
o engenho de seus ninhos
para vales que os desvendem.

Um deles deixa ficar,
sobre a mão que ofereço,
o seu pouso de convite
à clareira que se abre.

E prossigo sem combates,
posto que depus as armas.

As leves flores do estio
elaboram com fragrâncias
um caminho à desvelar-se
que o olfato, à franciscar,
feito o cãozinho do acaso,
vai farejando e forjando
para as sandálias perdidas
que à clareira me conduzem.

E o passarinho flutua
nas ondas do próprio canto
à conceder-me os desvelos
dos processos à seguir
para se alcançar o Vale.

E prossigo sem combates
à ventura de chegar.


texto de Joel Pozzobom - tfs

2 comentários:

  1. Olá! Segui a Monet até aqui...Vou ficar... só no vislumbre...

    Abraço!

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  2. Bom cara, gosto de escrever, e bem verdade que faço alguma coisinha tosca, mas está de parabéns mesmo, que as artes dos poetas lhe abençõe.
    Welerson Prata.

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