15 de julho de 2011

Duelo em Trabuco City






TRABUCO CITY  -  HISTÓRIA DE UMA VINGANÇA.

... me segue uma estrela no peito do Xerife de Denver. ( Paulo Leminski )

               Do meu Rancho eu a via suspensa na distância, entre as dunas de ódio daquele tórrido deserto que nos separava.

               Trabuco City!...

               Trabuco simplesmente, para mim, posto que odiando-a com devoção tão intensa, acabei por desenvolver com aquela currutela uma profunda intimidade.

               Eu estava predestinado à invadi-la, um dia, e resolver de vez as pendências da história de sangue que pairava sobre os arredores. História que teimava em dessepultar-se desencadeando o tedioso ódio que então se intensificava à cada geração
               O único resquício de paz que meu espírito naqueles dias experimentava, vinha quando o sol se punha e o horizonte então obscurecia arrastando consigo Trabuco para dentro da noite, para devolvê-la vermelha de ódio, à cada manhã.

               "Em Trabuco...", diziam, "...tudo se resolve à bala". Eu então já vinha sendo moldado desde o berço. Meu travesseirinho era uma garrucha carregada cheirando à pólvora, e para afiarem a minha raiva, meus tutores elaboraram cuidadosamente um cardápio que incluía tira gosto de saúvas estressadas no vinagre, amendoim brabo, saladas de arranha-gato e talo de urtigão com os espinhos, ovos de urutu brigando ferozmente com a banha de cascavel na hora da fritura, toda sorte de ervas daninhas, farinha de pedra, espinhos assados e sempre crocantes, a raríssima "enxurrada do deserto" devidamente servida num copo de chifre de touro brabo, e tantos outros itens tão surreais quanto estes.  Para sobremesa pudim de argila sovada para uma sensação de alívio intestinal e um chiclete de carrapicho, pois ninguém é de ferro. O sacrifício se completava com a higiene bucal feita com uma escova de piaçava e, em seguida, para que eu aprendesse a dormir de olhos bem abertos, me era servido num autêntico Nadir Figueiredo tamanho duplo um chá fervente de capim margoso, tomado sem pestanejar, num único gole. Sem açúcar. Nem adoçante.

               Cumprida as lições de geozoologia e botânica que a refeição encerrava, eu adormecia como um anjo. Um anjo dos infernos.

               Os alvos onde a mira de minha vingança era ajustada, eram estrategicamente colocados em algum ponto entre eu e aquela maldita mancha no horizonte, para que toda bala à buscasse.
               Eu fora educado de maneira a odiar Trabuco City. E galgara com notas máximas meu diploma.
               E um dia fatalmente se daria o faiscante confronto.

               *

               Paralelamente à minha formação, vinha sendo treinado de maneira sigilosa, nos grotescos grotões do deserto em torno, Corisco, o "veloz" e esfuziante pangaré que me levaria nas ancas até as portas daquela empoeirada Sodoma, no fatídico dia que se aproximava à passos largos.

               E como tudo que se aproxima acaba chegando, o Dia chegou.

               Mas onde estava Corisco?

               *

               Dias valiosos perderam-se até que eu e os mentores do ataque localizássemos Corisco. Confusamente camuflado e encolhido atrás duma moita, o rocinante fincava os cascos na areia e olhava-me "ternamente" dizendo-me em fluente relinchês, como bem cabe à um pangaré malinstruído:
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- Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
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               Depois de uma densa cuspida que levantou dois quilos de pó, olhei bem nos seus olhos e respondi:
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 ... ... ... Ou vai, ou racha, pangaré fí duma égua!... 

- Senhora Égua!...  

***

- Faça um tratamento dentário antes de falar de mamãe. 

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               E seguimos por la Mancha calcinante! ... ... ...

               (   Perdão!... essa é uma outra história.   )...

               Recuperemos então a sobriedade que o ódio nos cega e retomemos a trilha que nos engole rumo à Trabuco City, essa meiadúziadecasas onde tudo se resolve, como dizem, "à bala"!...

               Por onde passávamos montados em nosso vagaroso sentimento de vingança, os cactos iam se dobrando em reverência à nuvem de ódio que envolvia-me, e a Corisco.
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- Epa lá! Eu não tenho nada à ver com essa palhaçada.

- Cala a boca, Corisco !!... pfooh pfooh pfooh ... 

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               O terrível duelo fora agendado por uma das partes, Eu, sem que a outra soubesse, havia já  muitos anos. E seria travado, eu esperava, com o próprio Xerife, dada a importância da picuinha que, a bem da verdade eu nem sabia mais qual era. Mas o que importava, agora, era a refrega e o desfecho.

               Vagarosamente nos aproximávamos de Trabuco. Tão vagarosamente que percebi que Corisco, disfarçadamente, engatara a marcha à ré.  Então finquei-lhe as esporas de tampinhas de garrafa nas virilhas e Corisco rolou de cócegas jogando-me ao chão.

               Ao levantar-me o terror se posicionou ante meus olhos. Era uma tabuleta carcomida desejando boas-vindas à Trabuco City.

               Queimei-a.

               Com o olhar.
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- Credo !
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               Enquanto as brasas incandescentes ruborizavam-me a face e avivavam meu ódio, enrolei a corda de Corisco à um portentoso tronco de baixotinha-passa-sede, e cumpri sozinho aqueles intermináveis dez passos.
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- Epa lá! E a minha água ?

- Cala a boca, Corisco !!... Isso é hora de fogo e não de água. Putchack!... (cuspida).(...mais dois quilos de pó na atmosfera do tórrido deserto em torno...)...

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               Na ruela que partia ao meio o vilarejo, nenhuma viva alma se manifestava, tal o pavor que havia acometido a gente do lugar quando de minha chegada.
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- UASHUASHUASHUASHUASHUASUASHUA ...

- Cala a boca, Corisco !!...

- Tá !... rsrsrsrsrsrsrs. Calei.

- ...

- Mas, e minha água ??

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               "Se não julgasse necessitar das balas, certamente me livraria de Corisco naquele momento."

               Avistei então alguém refestelando-se numa cadeira de balanço de uma varanda empoeirada, com as botinas sobre um caixote que sustentava um copo de um destilado qualquer.

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- Era Ki-suco.
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               Me aproximei.

               Corisco, de sua distância de dez passos, presenciava a cena.

               O homem roncava profunda e profusamente, à sombra das abas de um chapelão.

               Percebi então pela estrela de cinco pontas fincada em seu peito e profundamente corroida pela salinidade da atmosfera de ódio que nos circundava, que eu estava diante do temível Xerife.

               Chamei-o com a voz trêmula. De ódio, claro.
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grdfujnhdrgrsrsrsrsrsrsrsrsr ...

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               Nada!...

               Então uma senhora na vidraça de uma casa-de-donzelas do outro lado da rua, bradou educadamente com a mão dum lado da boca: "C U T U C A   Q U E   E L E   É   S U U U U U U U U R D O"!... Assustando-me, de leve, com o grito da moça, acabei por derrubar o chapelão do bruto com o cano do revólver.
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O nome disso é tremedeira ! ... rs

Corisco, faça-me o pavor !! ... digo, favor.

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK ...

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               Nisso, o homem esticou-se todo, no que pulei para trás,... ... e depois de um fedorento bocejo de anaconda, que, se eu não tivesse sido ágil o suficiente teria me engolido com revólver e tudo, me fitou de detrás da espessa camada de remela que o protegia, e ainda suspenso no espasmo de quem espreguiça, pronunciou a terrível pergunta: "RRRRMMMMMMMMMMMMMMMM... ... ... ... ... .. . . Que horas são ??" ... No que respondi de pronto: " Hóóra de rárresolver as cacôisas à babála!... Levavânte!!!...

               Enquanto eu escorregava não sei no quê,
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Eu sei.

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seus olhos vermelhos fitaram-me como dois perdidos sóis no horizonte das vinganças transcendidas, e subitamente sacou da algibeira um já deflorado pacote de balas doces, alvejando-me na boca. Catei a bala nos dentes, mastiguei-a e cuspi lhe o papel bem no meio da testa.

               O homem tombou. (...mais dois Quilos de pó na atmosfera do tórrido deserto em torno.)

               Nessa noite meu revólver enferrujou, finalmente, e meu ódio, sem direção, perambula desde então nas ancas secas de Corisco.

Epa lá!...  Seca é a minha goela!             
              

Corisco.

THE END
Autoria, direção, produção e atuação: Joel Pozzobom
ator coadjuvante: Corisco


Epa lá!... Coadjuvante??? ...


ok Corisco. Em Trabuco II você terá um papel mais relevante... e água!


Riiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnnnnnnnnnnncccccccccchhhhhhhhhhhhh ...


Calma Corisco!... Eu disse: (Á)gua !


Ah mas é só mudar uma letrinha!... Você pode!... É você quem escreve.





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