
OS MANEJADORES DE NUVENS.
Nos últimos anos as chuvas haviam nos abandonado, e o céu intensificava seu azul como jamais fizera no ambiente da história perdida que venho agora contar.
A desertificação dos territórios em torno alcançava nosso comum interior, e nossos próprios sentimentos iam, a exemplo da paisagem que nos envolvia já como casulo maternal, secando.
Os seixos até então embebidos no leito, agora um caminho aberto para nossos préstitos, intensificavam seus laços com a luz refletindo-a seca e direta, cegando-nos como agulhas de brilho.
Os troncos de Baixotinha-passa-sede firmavam-se às fendas das rochas com crescentes dedos de raíz, como mãos de suicidas arrependidos agarrando-se desesperadamente aos dentes da boca da morte.
Sacrificamos todos os animais à todos os deuses e dançamos todas as danças de todas as tribos. E o Céu fez intensificar seu azul.
Se manifestaram pífias e silenciosas, mas numa questão de dias já obscureciam o horizonte e vibravam os tímpanos daqueles mais sensíveis dentre nós.
Em poucos dias mais, a balbúrdia havia se instalado, e o horizonte parecia se fechar, nos encurralando no funil de nossas preces e pavores.
Vasculhamos de nossos mais empoeirados papiros até as mais cristalinas intuições de nossas vestais, e não encontramos afago algum diante daquilo que nos atormentava.
Nossos arrependimentos, remorsos, revolta e desespero, nessa mesma ordem foram florindo. E só quando abandonamos o jardim, Deus pode enfim deitar sua fragrância ...
O estranho povo condutor desses carros falava numa estranha língua baseada em sorrisos, cuja insonsa sonoridade alguns dentre nós já íam destilando de maneira rudimentar, ainda que a maioria interpretasse-a como silêncio.
E assim fomos sendo descobertos !... ... por nós mesmos !... Pois esse povo há muito nos conhecia e contemplava, e velava o Ovo de nossa pureza, que agora, exposto às novas condiçoes de luminosidade, calor e seca, vagarosamente se rompia.
Suas intraduzíveis hastes foram sendo erguidas acima de nossas torres e Templos, e suas catapultas lançavam as cordas, movendo os sarilhos ... Fisgando e içando as mais distantes e selvagens nuvens de chuva para as cacimbas de nossa sede.
E do centro de sua reunião haveria de precipitar sobre nós a tão aguardada quanto ausente chuva.
Pois as verdades suspensas, sequer as lendas aceitam.
A desertificação dos territórios em torno alcançava nosso comum interior, e nossos próprios sentimentos iam, a exemplo da paisagem que nos envolvia já como casulo maternal, secando.
Os seixos até então embebidos no leito, agora um caminho aberto para nossos préstitos, intensificavam seus laços com a luz refletindo-a seca e direta, cegando-nos como agulhas de brilho.
Os troncos de Baixotinha-passa-sede firmavam-se às fendas das rochas com crescentes dedos de raíz, como mãos de suicidas arrependidos agarrando-se desesperadamente aos dentes da boca da morte.
Sacrificamos todos os animais à todos os deuses e dançamos todas as danças de todas as tribos. E o Céu fez intensificar seu azul.
***
E o azul, agora marinho, permeou-se aos poucos de navegantes formas que nossos olhos vagamente adivinhavam como insólitas caravelas fantasmas substanciando-se na superfície do celeste oceano de nossa revelação, ante a herdada miopía de nossas lentes.Se manifestaram pífias e silenciosas, mas numa questão de dias já obscureciam o horizonte e vibravam os tímpanos daqueles mais sensíveis dentre nós.
Em poucos dias mais, a balbúrdia havia se instalado, e o horizonte parecia se fechar, nos encurralando no funil de nossas preces e pavores.
Vasculhamos de nossos mais empoeirados papiros até as mais cristalinas intuições de nossas vestais, e não encontramos afago algum diante daquilo que nos atormentava.
Nossos arrependimentos, remorsos, revolta e desespero, nessa mesma ordem foram florindo. E só quando abandonamos o jardim, Deus pode enfim deitar sua fragrância ...
***
Então com visão clareada fomos aos poucos definindo em nossa nascitura percepção, as grotescas porém mansas formas que então transpunham as barreiras do nosso medo, e se nos apresentavam como descomunais carros, móveis por imensos discos de crisólita, cujas sombras rastejavam como farrapos de noite sobre o pedregoso solo de nossos dias. E como que adornando esses carros, os encimavam incompreendidas hastes, catapultas, e sarilhos envolvidos por cordas e cabos, enfileirados num desfile surreal que acomodaríamos nos mais profundos escaninhos de nosso espanto, para encená-lo um dia, na avenida de uma maravilhosa cidade de braços abertos, mas ainda debruçada nas praias de um futuro distante.O estranho povo condutor desses carros falava numa estranha língua baseada em sorrisos, cuja insonsa sonoridade alguns dentre nós já íam destilando de maneira rudimentar, ainda que a maioria interpretasse-a como silêncio.
E assim fomos sendo descobertos !... ... por nós mesmos !... Pois esse povo há muito nos conhecia e contemplava, e velava o Ovo de nossa pureza, que agora, exposto às novas condiçoes de luminosidade, calor e seca, vagarosamente se rompia.
***
... E os carros seguiam rangendo os eixos de sua presença. Alguns encimados por imensas velas brancas como suspensos campos de lírios, em cuja expressão íamos lendo a História sendo escrita.Suas intraduzíveis hastes foram sendo erguidas acima de nossas torres e Templos, e suas catapultas lançavam as cordas, movendo os sarilhos ... Fisgando e içando as mais distantes e selvagens nuvens de chuva para as cacimbas de nossa sede.
E do centro de sua reunião haveria de precipitar sobre nós a tão aguardada quanto ausente chuva.
***
Porém esse processo, alquímico, de mutar a água em antídoto para a sede, tratando as nuvens feito gado, nelas desenvolveu e por fim despertou, tendências ao estouro!... E quando do degelo dos arco-íris e laços, nada pode contê-las nas paradisíacas paragens do Céu. E essa chuva, com tal intensidade irrompeu, que o Tempo inverteu seu vetor !... e a verdade foi arrastada pelos bueiros da História até as praias das lendas... ...que contam que um de nós com os seus, e todos os animais com habilidades suficientes para dobraduras e leveza, salvaram-se do Dilúvio num barquinho de papel dourado, que foi depois reformado, na lenda, regredindo para a condição de Arca de Madeira e Chumbo, para assim poder pousar.Pois as verdades suspensas, sequer as lendas aceitam.
texto de Joel Pozzobom.
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