10 de novembro de 2011

Manejadores de nuvens.




OS MANEJADORES DE NUVENS.


                    Nos últimos anos as chuvas haviam nos abandonado, e o céu intensificava seu azul como jamais fizera no ambiente da história perdida que venho agora contar.

                    A desertificação dos territórios em torno alcançava nosso comum interior, e nossos próprios sentimentos iam, a exemplo da paisagem que nos envolvia já como casulo maternal, secando.

                    Os seixos até então embebidos no leito, agora um caminho aberto para nossos préstitos, intensificavam seus laços com a luz refletindo-a seca e direta, cegando-nos como agulhas de brilho.

                    Os troncos de Baixotinha-passa-sede firmavam-se às fendas das rochas com crescentes dedos de raíz, como mãos de suicidas arrependidos agarrando-se desesperadamente aos dentes da boca da morte.

                    Sacrificamos todos os animais à todos os deuses e dançamos todas as danças de todas as tribos. E o Céu fez intensificar seu azul.

***

                    E o azul, agora marinho, permeou-se aos poucos de navegantes formas que nossos olhos vagamente adivinhavam como insólitas caravelas fantasmas substanciando-se na superfície do celeste oceano de nossa revelação, ante a herdada miopía de nossas lentes.

                    Se manifestaram pífias e silenciosas, mas numa questão de dias já obscureciam o horizonte e vibravam os tímpanos daqueles mais sensíveis dentre nós.

                    Em poucos dias mais, a balbúrdia havia se instalado, e o horizonte parecia se fechar, nos encurralando no funil de nossas preces e pavores.

                    Vasculhamos de nossos mais empoeirados papiros até as mais cristalinas intuições de nossas vestais, e não encontramos afago algum diante daquilo que nos atormentava.
                    Nossos arrependimentos, remorsos, revolta e desespero, nessa mesma ordem foram florindo. E só quando abandonamos o jardim, Deus pode enfim deitar sua fragrância ...

***

                    Então com visão clareada fomos aos poucos definindo em nossa nascitura percepção, as grotescas porém mansas formas que então transpunham as barreiras do nosso medo, e se nos apresentavam como descomunais carros, móveis por imensos discos de crisólita, cujas sombras rastejavam como farrapos de noite sobre o pedregoso solo de nossos dias. E como que adornando esses carros, os encimavam incompreendidas hastes, catapultas, e sarilhos envolvidos por cordas e cabos, enfileirados num desfile surreal que acomodaríamos nos mais profundos escaninhos de nosso espanto, para encená-lo um dia, na avenida de uma maravilhosa cidade de braços abertos, mas ainda debruçada nas praias de um futuro distante.

                    O estranho povo condutor desses carros falava numa estranha língua baseada em sorrisos, cuja insonsa sonoridade alguns dentre nós já íam destilando de maneira rudimentar, ainda que a maioria interpretasse-a como silêncio.

                    E assim fomos sendo descobertos !...   ... por nós mesmos !...   Pois esse povo há muito nos conhecia e contemplava, e velava o Ovo de nossa pureza, que agora, exposto às novas condiçoes de luminosidade, calor e seca, vagarosamente se rompia.

***

                    ... E os carros seguiam rangendo os eixos de sua presença. Alguns encimados por imensas velas brancas como suspensos campos de lírios, em cuja expressão íamos lendo a História sendo escrita.

                    Suas intraduzíveis hastes foram sendo erguidas acima de nossas torres e Templos, e suas catapultas lançavam as cordas, movendo os sarilhos ... Fisgando e içando as mais distantes e selvagens nuvens de chuva para as cacimbas de nossa sede.

                    E do centro de sua reunião haveria de precipitar sobre nós a tão aguardada quanto ausente chuva.

***

                     Porém esse processo, alquímico, de mutar a água em antídoto para a sede, tratando as nuvens feito gado, nelas desenvolveu e por fim despertou, tendências ao estouro!...  E quando do degelo dos arco-íris e laços, nada pode contê-las nas paradisíacas paragens do Céu. E essa chuva, com tal intensidade irrompeu, que o Tempo inverteu seu vetor !... e a verdade foi arrastada pelos bueiros da História até as praias das lendas... ...que contam que um de nós com os seus, e todos os animais com habilidades suficientes para dobraduras e leveza, salvaram-se do Dilúvio num barquinho de papel dourado, que foi depois reformado, na lenda, regredindo para a condição de Arca de Madeira e Chumbo, para assim poder pousar.

                    Pois as verdades suspensas, sequer as lendas aceitam.


texto de Joel Pozzobom.

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