
Eça história de Cér é bobage. Duvídio qui lá os Ânjo dêxa a genti pitá. Pirfíru í prú Inférno!... Lá mi acóco na bêra dum brazêro i num pircízo nem di izquêro Sô. ( Belarmino Fernande. )
FUMAÇA NO PENSAMENTO.
FUMAÇA NO PENSAMENTO.
Me recordo com suspensa nostalgia do meu avô Belarmino, coroado pela luz da lua no quintal noturno, picando fumo para o quinquagésimo e já insípido cigarrinho do dia.
Caprichoso que era e com a habilidade galgada com o sacrifício dos anos de vício, catava no paiol uma espiga e descartava essas coisas desnecessárias de milho e sabugo, e com o que realmente interessava, a palha, inteira e sequinha, sentava-se no toco para confeccionar o quinquagésimo.
A manufatura ia brotando nas mãos do Vô, que munido de um canivete cujo fio não combinava nunca com sua voracidade por uma baforada, picava trêmula e grosseiramente o fumo, ameaçando sempre jogar fora o canivete sem nunca cumprir a ameaça.
E observando sempre o equilíbrio entre necessário e suficiente, enchia a palha e dobrava a ponta afastando um pouco "a obra” das vistas para, segundo ele, guardá-lo no pensamento antes de consumi-lo.
Dadas as dimensões dos "dirigíveis", os cigarros do Vovô flutuavam nas piadas dos quintais vizinhos como "as pamonhas-de-fumo do Seu Belarmino".
***
E Vovô, de tanto picar fumo, foi perdendo as digitais dos dedos (até porque outras não constam) e a identidade da Alma. E adoeceu quando eu era ainda menino.
Disseram os médicos que se tratava de "fumaça no pensamento".
Então nas noites de lua, avistava-se Seu Belarmino, proibido que fora de tragar as pamonhas, todo lampeiro tentando apanhar pirilampos, murmurando roucamente: Bituuuuca!... Bituuuuca!...
***
Mas Seu Belarmino, meu avô, acabou passando para a história da região de Sabugos, currutela onde pitava.
Digo, vivia.
Não como um gênio construtor de dirigíveis, mas como o matuto cujos pulmões, numa noite de lua entrecortada pela tosse cada vez mais Ruáá Ruáá, resolveram abandonar-lhe o peito e, de mãos dadas, fugiram capoeira à dentro para sabe-se lá o quê, largando o vácuo silencioso de suas cavidades para que vovô acabasse de criá-lo.
Traição.
***
E Vovô, finalmente isentado de suas obrigações respiratórias sem sequer ter exercido o sagrado direito ao último suspiro, passou a viver no fundo do lago de minhas saudades, acocorado no limo, tentando inutilmente acender seu primeiro cigarrinho da Eternidade, entre ameaças constantes de jogar fora o isqueiro, e feito um escuro feto sempre prestes a ser abortado pelas águas claras que desde então o envolvem.
E quando chega a noite e os raios de luar perfuram a água acendendo os lambaris, eu ouço vagamente o assombroso mantra de Seu Belarmino: ... Bituuuuuuuuuuuuuuuuuuuu... ...uuuuuuuuuuca!... Bituuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...! ... e me pergunto: será já a fumaça herdada no meu pensamento vago?... ou vovô na voz do lago?...
Caprichoso que era e com a habilidade galgada com o sacrifício dos anos de vício, catava no paiol uma espiga e descartava essas coisas desnecessárias de milho e sabugo, e com o que realmente interessava, a palha, inteira e sequinha, sentava-se no toco para confeccionar o quinquagésimo.
A manufatura ia brotando nas mãos do Vô, que munido de um canivete cujo fio não combinava nunca com sua voracidade por uma baforada, picava trêmula e grosseiramente o fumo, ameaçando sempre jogar fora o canivete sem nunca cumprir a ameaça.
E observando sempre o equilíbrio entre necessário e suficiente, enchia a palha e dobrava a ponta afastando um pouco "a obra” das vistas para, segundo ele, guardá-lo no pensamento antes de consumi-lo.
Dadas as dimensões dos "dirigíveis", os cigarros do Vovô flutuavam nas piadas dos quintais vizinhos como "as pamonhas-de-fumo do Seu Belarmino".
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E Vovô, de tanto picar fumo, foi perdendo as digitais dos dedos (até porque outras não constam) e a identidade da Alma. E adoeceu quando eu era ainda menino.
Disseram os médicos que se tratava de "fumaça no pensamento".
Então nas noites de lua, avistava-se Seu Belarmino, proibido que fora de tragar as pamonhas, todo lampeiro tentando apanhar pirilampos, murmurando roucamente: Bituuuuca!... Bituuuuca!...
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Mas Seu Belarmino, meu avô, acabou passando para a história da região de Sabugos, currutela onde pitava.
Digo, vivia.
Não como um gênio construtor de dirigíveis, mas como o matuto cujos pulmões, numa noite de lua entrecortada pela tosse cada vez mais Ruáá Ruáá, resolveram abandonar-lhe o peito e, de mãos dadas, fugiram capoeira à dentro para sabe-se lá o quê, largando o vácuo silencioso de suas cavidades para que vovô acabasse de criá-lo.
Traição.
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E Vovô, finalmente isentado de suas obrigações respiratórias sem sequer ter exercido o sagrado direito ao último suspiro, passou a viver no fundo do lago de minhas saudades, acocorado no limo, tentando inutilmente acender seu primeiro cigarrinho da Eternidade, entre ameaças constantes de jogar fora o isqueiro, e feito um escuro feto sempre prestes a ser abortado pelas águas claras que desde então o envolvem.
E quando chega a noite e os raios de luar perfuram a água acendendo os lambaris, eu ouço vagamente o assombroso mantra de Seu Belarmino: ... Bituuuuuuuuuuuuuuuuuuuu... ...uuuuuuuuuuca!... Bituuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu...! ... e me pergunto: será já a fumaça herdada no meu pensamento vago?... ou vovô na voz do lago?...
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A essência, dependendo das circunstâncias e do meio, não reside no interior (dentro), mas no interiôr (região afastada). Feito a palha duma espiga. (Wiliam Fragonard.)
Texto de Joel Pozzobom. Neto fictício do Senhor Belarmino Fernande.
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