A DESCOBERTA DO REMORSO
Folha seca da manhã domingueira desprendida dos ramos da lembrança.
Aos domingos nos apinhávamos na
carroça vestidinhos de manhã. Eu, e todas as crianças que viviam em Mim. E deixávamos de bom grado que a ensolarada estrada que nos levava à Igreja fosse engolindo nosso frescor matinal.
Satanás nos seguia com a língua de fora pingando a baba, e com o rabo ia sintonizando as estações da nossa domingueira alegria.
De quando em quando Remorso desprezava entre os varais da
carroça os acúmulos descartáveis de suas ruminações do dia anterior. O que para
nós era uma festa com requintes de malícia sem malícia.
Então Satanás parava diante do estrume novo com trejeitos de quem cheira pipa de azedar repolho, assoprava
pelo focinho se desviando da merda, e retomava caminho rumo à suas
convicções religiosas, sempre rebatizando com urina as pedras da estrada.
Satanás era nosso cãozinho religioso com aval do padre para entrar na igreja. E Remorso um burro ateu, que, evidentemente, ficava do lado de fora. Do pátio.
Eram, de fato, apenas dois animais. Mas como na conversa do pai boiava o artifício de tornar os fantasmas seres palpáveis ao desarmado sentido de tato de nossa consciência em formação, Satanás e Remorso passaram a pousar em meus ombros com assopros e hálitos opostos
em meu nascente exercício de livre arbítrio.
Um vivia solto em Mim com direito à brincadeiras e acesso à varanda, quando chovia. O outro vivia num pequeno pasto sem arbustos, chovesse ou não, e puxava arado, lenha, coivara, água, melancia, milho, laranja, sonhos... e pesadelos. E aos domingos descansava puxando aquela carroça apinhada de creanças.
Um latia. O outro calava. E calando foi que despertou em mim um sentimento perturbador e até então desconhecido, que se tornaria minha própria carroça. Essa, que hoje vivo puxando pelas estradas de Mim.
Um latia. O outro calava. E calando foi que despertou em mim um sentimento perturbador e até então desconhecido, que se tornaria minha própria carroça. Essa, que hoje vivo puxando pelas estradas de Mim.
Texto de Joel Pozzobom.

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