31 de julho de 2014



ENSAIO & CENA


          Sem nascer vou vivendo no acanhado útero de minha mãe. Essa gruta aconchegadamente escura onde fico intuindo a luz.
          Meu irmão já nascido as vezes desce pela claridade vaporosa das cúpulas para dividir uma porção de centelhas e uma caneca de ar.
          Dia desses trouxe-me, bem lavadinho, um caco azul de céu que achou no quintal depois de uma ventania. E pendurou-o no cenário.
          Dói-me fitá-lo, pois a luz fere-me a cegueira enquanto elabora as asas que brotam-me dos olhos para o voo da alma, caco adentro e céu afora, que largará-me escorado numa dessas cadeiras que deixamos aos mortos com toda a mobília, quando migramos de nós.
          E ficará pairando no obscuro palco abandonado, ante à multidão de ausentes, a cena de uma imensa borboleta azul, que disfarçando-se de céu carregou o protagonista.



texto de Joel Pozzobom.
 



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