UMA HISTÓRIA DE ESQUERDA.
Era feita mesmo a própria Santa a gestar serenamente meia dúzia de felizes crianças, regidas pelas inabilidades doutrinadoras da Tia Pedrita.
Tudo transcorria normalmente, quando lá pelo meio da cartilha a sala foi agraciada com uma aquisição. Tratava-se do Esquerdinha. Uma dessas personagens cuja característica marcante, no caso a de escrever com a mão esquerda, sobrepõe-se ao nome.
Para mim, reles destro mortal que nunca havia visto outro do gênero, a situação intrigava.
Houve que se remanejar o tranquilo cotidiano escolar em torno da especial necessidade do Esquerdinha, pois, dada sua condição, o novato requeria uma carteira extra a ser colocada do lado esquerdo da sua, atravancando a já estreita passagem do corredor.
Apesar da pouca idade, sete anos à época, coube-me central incumbência nesse processo de remanejamento das carteiras. Em outras palavras, Tia Pedrita direcionou-me cinco tesos dedos em forma de mão espalmada, e do alto de um belamente adornado cavalo imperial, como se às margens do Ipiranga, bradou: " - VAI LÁ JOEL. AJUDA O MENINO." Como se eu também não fosse um.
Assim, arrastamos lá dos fundos, eu e o Esquerdinha, uma escura peça em desuso, prestes a cuspir um morcego e esculpida na mais dura e pesada cabreúva.
Estacionado o trambolho, em sinal de agradecimento o Esquerdinha murmurou um exíguo "ta bão aqui".
Em meu então ainda indefinido mundo conceitual, ora o Esquerdinha pendia para a direita, feito um anjinho deposto numa azulada poltrona de nuvens; ora para a esquerda, feito um vermelho diabrete recém chegado das profundezas, especialmente enviado com o fim de retorcer a tradicional geometria da disposição das carteiras.
Meus processos mentais enfileiravam-se de forma a assistir as performances do Esquerdinha lá pela ponta esquerda do time do contra. Afinal, era digna de plateia a espasmódica desenvoltura com que esparramava seus arabescos e garranchos sobre a retidão das pautas, como se psicografasse cifradas mensagens do Inferno.
Quando à noite, no programa político do rádio alguém era mencionado como sendo "de esquerda", lá ia o semblante do Esquerdinha sobrepor-se à indefinição facial do mencionado.
Pouco depois o ano de 1972 foi tragado pelos vórtices do beleléu levando consigo a meia dúzia, o Esquerdinha, e Tia Dompedrita, galopando seu pomposo alazão imperial, já além da barranca de lá do meu imaginário Riacho do Ipiranga, e bradando alegremente: " -SE É PARA O BEM DE TODOS E FELICIDADE GERAL DA NAÇÃO, DIGAM AO POVO QUE FUI."
Ato contínuo um pau-de-arara de mudanças estacionou em frente de casa e eu fui, empoleirado, cursar o segundo noutra freguesia.
Freguesias mais tarde conclui sobressaltado que ser de esquerda não guardava relação alguma com origens infernais ou com escrever com a mão canhota. Mas confesso que até hoje não compreendi muito bem o que vem a ser.
Sempre que vali-me de consultoria a fim de clarejar o meu conceito sobre a Esquerda, tudo o que consegui foi elevar minhas trevas ao quadrado.
Assim, sempre que me deparo com pessoas entendidas referindo-se à alguém como "de esquerda", meus velhos preconceitos dessepultam o Esquerdinha, debruçado na cabreúva e ferrando com a geometria da disposição das carteiras, lá na Escolinha Nossa Senhora da Consolação, no meio da minha infância.
texto de Joel Pozzobom

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