Na infância eu julgava ser ele a eternidade. Mas hoje, depois de anos de silencioso e fraterno convívio, reconheço nele o falível Sr. Tempo.
Hoje pela manhã Seu Tempo me presenteou com uma semente de um dia de eternidade, acompanhada de instruções de uso.
Um caruncho comprometera-lhe a manhã, mas da sua tarde ainda daria para aproveitar boa parte!...
Conforme orientado engoli-a, e assim, contraditoriamente levou-me para seus interiores, enquanto o Sr. Tempo se afastava. E uma vez dentro, prendi uma das pontas da rede na memória e a outra na divagação, e deitei-me nas varandas do sono para um descanso povoado de pensamentos sem nexo. Exercício que teimo em cultivar para deleite de minhas cada vez mais esticadas e quase rompidas sinapses.
Então meu pé de zelinda dobrou-se sobre a varanda em agradecida reverência, a servir-me flores, molemente douradas como o degelo do ouro. Aceitei-as. E assim, vagarosamente se emaranhando na rede, foram cruzando a ante sala do meu sono, tomando-o de todo e iluminando-se em dúvidas. ... pois as dúvidas nos abrem feito flores, enquanto as certezas é que são os diques do primaveril riacho da floração, onde os dinossauros, simbolizando o peso do tempo, vêm ainda abrandar a sede que a antiga Terra calcinada gravou em suas entranhas.
Alguns deles vieram pastar-me os jardins. Então lhes acenei o chapéu e assim marcharam pesada e demoradamente de volta ao distante Reino da Antiguidade. Não sem antes um deles pastar-me o chapéu.
Desconfiei seriamente, então, que aquilo tudo era um sonho... Pois trouxe dos tempos de escola um dos raros conhecimentos importantes que de lá restaram... Esse!... o de que as flores nunca conviveram com os dinossauros. Surgiram depois, além da curva do caminho já aberto.
Pensando bem nunca vi mesmo um dinossauro com flor na lapela. ... mas talvez já estivessem prontas, brincando de se esconder enquanto aguardavam a extinção dos brutos, para manifestarem-se nos primeiros seres dotados das finas características de perfume, cor, maciez, beleza, ... ...ainda que as sensações associadas à essas características só viessem a desposá-las quando da chegada de um tal "humano moderno", milhões de anos depois.
Então meu galo cantou, trincando-me a divagação e jogando-me no chão da Era Moderna. ...mas despertei-me segurando firmemente a garimpada resposta àquela mais beija-flor das perguntas bicudas: (Quem veio primeiro ? O Ovo ? Ou a Galinha ?...)
O Ovo, óbvio! ...já costumeiramente posto, lá pelos meados dos ninhos de pedra do Cretáceo, pelos dinossauros, ( ou pelas dinossauras mais provavelmente!... ), muito antes da primeira galinha esboçar um cacarejo,... ... ainda que já cacarejasse nas entranhas dos próprios dinossauros, devolvendo-me assim, numa oitava mais elevada, aquela mais beija-flor das perguntas bicudas:... (Quem veio primeiro? O ovo? Ou a cloaca?...) ...
A resposta, que eu havia guardado sob o chapéu, incorporou-se assim às entranhas dos Dinossauros cujo bando já rompia o horizonte do tempo, e não havia mais sentido em correr atrás. Então acabei perdendo-a por ter exercido o egoísmo de guardá-la.
Despedi-me então do meu amigo, Sr. Freud Flintstone, que havia entrado à pouco no sonho pela televisão que fora ligada, dizendo-me que me deixara um presente. E despertei de vez, com um ovo de brontossauro no meio da varanda, envolvido por uma fita com laço.
E agora tenho que chocá-lo para recuperar o tempo, a resposta, e a espécie perdidos.
texto de Joel Pozzobom.

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